segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Desenho ao fundo das escadas


Desenho ao fundo das escadas.
Sangue derramado sem hipótese de contemplações.
Ouvidos esmagados por gritos de dor e estrondos ensurdecedores que apresentam a confusão.
Diálogos interrompidos na gênese do caos.
Espelhos de miragens partidos, na escuridão de uma noite que se adivinhava ainda longa
E que se prolongou na memória de quem nessa noite não chegou a repousar sobre os seus escombros.
A criança escondeu-se nas profundezas do seu coração,
O homem entregou-se ao seu doloroso pesar.
Interromperam-se as danças de fogo que aqueciam os corpos,
Interromperam-se os copos que aqueciam as almas.
Apenas a noite permaneceu eterna e intacta
Nas mentes de quem a viveu e de quem não mais a sonhou.
Os ventos que transportam as memórias dos homens por toda a eternidade
Dissolveram-se em brisas aconchegantes de cabelos de crianças
Que jamais irei conhecer,
Pois que suas recordações irão estar já tão distantes das minhas,
Que a única certeza possível que poderemos ter
Será a certeza de quão incógnita é a nossa existência.
Jamais irei sonhar com esta noite.
Apenas sei que apenas poderei sonhar todas as noites da minha vida.
Até que a minha memória, a memória dos outros perante mim, a memória do mundo,
Desapareçam para sempre.
Flutuámos no tempo.