quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Olha para as minhas mãos! II


Olha para as minhas mãos,
Já não possuem a doce beleza de outrora, quando ainda acariciava
O teu cabelo,
Sem sentir as culpas de um mundo que não conhecia.

Olha para as minhas mãos,
Já não possuem a paz das manhãs ternas, de mãos dadas no calor dos nossos corpos.
Na doce leveza dos lençóis de cetim quando acordamos.
Na suavidade das noites em que adormecemos de rostos colados
Um no outro, fatigados de beijos que cresceram como as estrelas no céu,
E que acabaram por nos abandonar no infinito dos nossos sonhos.

Olha para as minhas mãos,
Duras, calejadas por uma vida que não desejei para nós os dois,
Insensíveis como a pedra de granito na qual esculpi a minha alma.
Demasiado imundas para serem capazes de te tocar
Sem possuírem o medo de te magoar.
Pedras, esculturas que nada deveriam tocar
A não ser o lento correr do tempo,
E que incredulamente se atrevem ainda a tocar a tua pele,
Branca e doce como as nuvens do céu,

Olha para as minhas mãos,
Aqui,
Nuas,
Expostas à crueldade do mundo,
À mediocridade de sistemas que não se superam a si mesmos,
À triste leviandade da existência.
Aqui, ao teu lado, já não encontro a paz de outrora,
Dos doces dias da nossa fantasia,
Encontro apenas a vergonha de te tocar, de te acariciar, de te beijar.

Olha para as minhas mãos,
Carregadas dos vícios do mundo, incapazes de te tocarem e, no entanto,
Sedentas do teu amor.
Perdoa-me meu amor, mas já não sou capaz de te tocar,
De te acariciar,
Pois minhas mãos estão desprovidas de vida
E a noite é demasiado longa para os nossos sonhos.
Amo-te no entanto,
Amo-te como a noite ama o dia e o beija durante a alvorada,
Amo-te como o mar ama o céu e o beija no horizonte,
Amo-te como apenas a tristeza pode amar a alegria.
Mas a noite é já longa, e uma vez mais, terei de partir.
Perdoa-me meu amor.
Amo-te, mas…
Olha para as minhas mãos.

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