quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Estou aqui II


Estou aqui,
Aqui neste lugar do desconhecido, do real
E sinto à minha volta a fraca corrente das marés de pensamentos
Que me rodeiam.

As penas da minha infância repousam distraidamente no sepulcro da minha alma,
Enquanto o silêncio da noite é repetidamente rasgado por gritos de aves em pânico
Que não sabem como fugir do horror do quotidiano e da inocência.

Estremecem as muralhas das cidades e as igrejas das aldeias
Tal como estremece minha alma perante a crueldade do amor na constante ilusão do mundo.

Afago os cabelos da utopia pausadamente nos intervalos das minhas crenças,
E busco o infinito nos vazios olhares das multidões que se passeiam nas margens do rio da existência.

Estou aqui,
Sentado nesta mesa de café vazio de conversas interessantes e cheio de gente desinteressante.

Debruçado na margem do rio pacientemente à procura do reflexo do meu semelhante
Afogado na mágoa de não conseguir acompanhar a corrente
Descrente das lágrimas que derramo no cristalino e frágil copo da vida que desconheço.
O real ao qual fui apresentado à nascença envelheceu demasiado depressa
E pede-me com a ternura de um vagabundo que lhe dê uma esmola.
Os meus olhos não são já capazes de fixar a corrente
E guardei as moedas na minha algibeira
Descrente da tristeza do real.

Olho à minha volta para constatar apenas que a noite continua imutável
Nos estridentes gritos das aves
E nos passos daqueles que percorrem as margens do rio.

Estou aqui,
Encostado no intervalo do Silêncio
E dos sonhos.
Descrente das minhas crenças
Despido das penas da minha infância.
Sem liberdade para poder voar
Perdido na crueldade de amar.

Persigo apenas os parágrafos das histórias que sonhei
Assinalando com pontos de interrogação as cicatrizes do meu coração
E deixo-me cair na empoeirada estrada da Solidão,
Esmagado pelo peso de lágrimas não chorei.
Fico aqui.
Abandonado aos pensamentos.

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