segunda-feira, 5 de julho de 2010

Estou aqui…

Estou aqui,
Aqui neste lugar do desconhecido, do impossível
E sinto à minha volta a fraca corrente das marés de pensamentos que me rodeiam.

Estranhas ocorrências são-me relatadas por estranhos seres que não me dizem nada.

E eu estou aqui,
Aqui neste ser corpóreo que me limita o pensamento
E que me escapa à razão.
Fico a pensar durante horas
Sobre a estranha condição dos homens,
Que não sabem pensar.
E chego à estranha conclusão,
De que só eu, me importo realmente com a estupidez dos homens.

Homens estes que se matam, que se dilaceram,
Que se amam e que se odeiam constantemente,
Criando um ciclo, que nenhum ser poderá alguma vez quebrar.

E eu, eu estou aqui,
Aqui enterrado, neste mundo de ignorância,
Sem poder amar, sem poder viver, sem poder morrer,
Apenas posso limitar a minha existência ao mero pensamento do meu ser,

E a vida, parece-me a mim uma ilusão.

Uma ilusão, em que eu estou aqui,
Neste perpétuo martírio,
De existir num mundo em que não quero existir!

Num mundo em que não posso existir,
Devido à estranha condição da inexistência do meu ser pensante.
Limito-me eu hoje ao mero sentimento,
À arte do ver, do sentir, do existir num mundo negro,
Rodeado pelas trevas dos pensamentos dos homens.
Pensamentos mortíferos e letais como cianeto.
O fatalismo obscuro destes pensamentos, cerca-me o coração,
E enegrece-me a alma, levando-me da realidade,
Para a ilusão das coisas irreais.

Morro lentamente, como que torturado pela Inquisição Espanhola,
Nos finais do século XIV, pela mera acusação de ser humano, e de possuir sentimentos.
Eu quero ser o sentimento,
Quero ser a emoção de uma lágrima prateada chorada,
Quero ser a vida de um choro desesperado,
Quero ser um GRITO!

Um grito de uma criança aterrorizada no meio da noite!
No meio de uma noite escura e fria, perdida nos tempos da existência humana.

Estranha noite, tão ridiculamente real em minha mente, e em todo o meu ser.

Que desespero!
Desespero de viver, sem o poder!
Desespero de amar, sem o poder!
Desespero de ser, sem o poder!
Quão desesperante é o desespero dos homens!
Dos homens perdidos, numa vida sem sentido nem direcção,
De uma vida desesperante, num mundo desesperante!

E eu, estou aqui,
Aqui neste mundo do desespero incondicional!
E vivo incondicional no meu desespero,
E vivo perdido na minha condição!
Estranha condição do meu ser pensante,
Enterrado nas mentes de seres não pensantes!

E eu, eu estou aqui,
Aqui neste desespero dos homens,
E nesta vida de detestáveis condições!

E vivo apenas para morrer,
E vivo apenas para sofrer,
E vivo apenas para existir na vida dos homens!
E o vento da existência, sacode meus cabelos,
E varre-me os pensamentos de solidão!

Pertenço a tudo e a todos no Infinito,
E no entanto, ninguém quer o meu ser.

E por muito enterrado na solidão que esteja,
Não deixo de pertencer ao coração dos homens!
E chegará o dia, em que definitivamente, eu viverei sem ter vida,
No coração dos homens apaixonados,
E dar-lhes-ei o amor e a paixão suficientes para amarem.

E será aí que eu ficarei pela eternidade,
E minha alma, não cessará de compreender os homens,
E toda a sua humana condição humana irracional!

Presenteado pela imortalidade, estarei em Deus,
E com Deus, no coração dos homens.

E não mais sofrerei na existência!

Mas por enquanto, é aqui que eu estou,
Sentado nesta mesa do café vazio de conversas interessantes, e cheio de gente desinteressante!

E eu, eu estou aqui,
Aqui no meio de tanta repugnância,
E de tanto pudor, estupidamente irreais!

E o universo sorri-me com o carinho de uma mãe, e acaricia os meus cabelos, confortando a minha alma.

Estou aqui!

Estou vivo!

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